Espaço Literário

Vou colocando e vamos colocando as nossas viajens literárias. O que importa não é a estética, mas retirar a Quimera, mesmo que seja por alguns instantes, que carregamos tão arduamente nas nossas vidas, ou despejar toda a alegria que sentimos no momento. Sinta-se a vontade.

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O homem Feliz

Um homem chamado Feliz busca aquilo que lhe nomeia.

Olha para seu passado e dentre todas as realizações do possível é empurrado para as engrenagens da burocracia.

A mecanização racional lhe dilacera a aura e não consegue enxergar mais a si mesmo. Diante dessa ânsia em se encontrar vê na arte o resquício de uma esperança humana.

Desespera-se. Seu cérebro já se comporta como maquina. Rastreia todas as exposições. Visita 1, 10, 100, 1.000, mas não encontra aquilo que procura, Feliz esta civilizado.

Um homem chamado Feliz busca aquilo que lhe nomeia.

O Jardineiro

O cultivo da vida

Entre os esbarrões que damos nas calçadas das cidades, trombamos com personalidades únicas no aglomerado de um enxame de pessoas.

Uma dessas personalidades que a pouco me choquei foi um jardineiro. Roupa desgastada pelo trabalho, pele queimada de sol e uma tesoura velha e enferrujada, segurada por mãos calejadas, não lhe dá aspecto amedrontador, mas de uma figura que ja se perdeu na memoria coletiva de uma selva de pedra.

“No trato das plantas”, o jardineiro diz “temos de cultivar a vida, pois se não cuido daquela vida, a minha propria vida não pode ser cuidada”, há quem diria que essa relação interdependente é puramente economica, mas o que dizer do aprendiz, que outrora estava mergulhado na angustia e incerteza, aprende o oficio da jardinagem e assim segue seu rumo? Sem “recompensas” o jardineiro assim fez. Diria eu que o cultiva da memoria de uma cultura que não se deixa perder se torna ilogico para o olhar do economista.

A solidariedade por vezes pode parecer estranha, mesmo que a unica coisa que se possa oferecer é uma bala de mel.

Jardineiro de Deus

Caminha pelas ruas e seus trabalhos realiza

Molda as plantas, as flores e as rosas conforme a beleza que lhe cabe. Retira as ervas daninhas e os parasitas pois esses são os males da terra.

Seu espirito cristão transcende com o trabalho, assim como translada para a vida.

Caminha pelas ruas e seu trabalho passa.

Molda os homens, as mulheres e as crianças conforme os valores de Deus. Expurga os demonios contidos nos gays, lesbicas e travestis, pois esses são os males da Terra.

“É o espirito de cristo no corpo do homem que lhe da virilidade e o deseja à mulher. E se o homem possui o desejo por outro homem é certo que está possuido pelo demonio”, eis o que o Jardineiro de Deus diz.

O Sujeito

Passado algum tempo na Terra do Saber nos convencemos de que realmente somos os conhecedores da verdade.

Cheios de si, procuramos dar o caminho para o “Sujeito”. “Sujeito” este que é tão estático quanto letras fixas no papel.

O engraçado, porem, é que esbarramos com esses Sujeitos o tempo todo e não nos apercebemos que nem fases, nem nada os definem. Algumas palavras ditas por esses Sujeitos incoerentes desmoronam toda a reflexão de anos que os Iluminados trabalharam.

Engraçado ver que a Idéia de Esclarecimento é tão obscura quanto a Irracionalidade da multidão.

Aqui esta um link que ira direciona-los a um site que contem os livros de Daniel Quinn um cara que categoriazam como anarco-primitivista, livros bons por sinal, fazem nos refletirmos.

Os livros são: Os Cristais de Rapanah, Ismael, História de B e Meu Ismael

 

História de Avohai

 

Começo minha história antes de encontrar aquele que me fez viver de morte, começo minha história onde ainda, em tempos passados, morria de vida, onde ainda precisava homogeneizar para viver, morrendo aos poucos, começo então minha história quando ainda era mortal.

Meu nome é Avohai, nunca soube ao certo qual é a exata descendência de tal sobrenome, mas até onde sei proveio da terra onde nasci e cresci, fruto da terra onde nutre as raízes das árvores mais antigas, das quais sugam seu alimento e por uma força sobrenatural desrespeitam o cair da folha ao levar seu alimento até a mesma…

Minha linhagem humana provém de sangue dos autóctones da península ibérica, não sei ao certo se houve mesclas com sangues de outros povos, o que para mim é muito importante, pois sei que com uma maior variedade de misturas consigo com maior facilidade superar as adversidades das quais a natureza me impõem, ai mostrando na pratica a falácia da homogeneidade…

Enfim, essa história foi dita a mim por minha avó, pessoa da qual me criou quando pequeno, na qual me dizia que a terra onde habitávamos era de nossa posse, não através das leis dos homens, mas sim das leis divinas, pois morando sempre ali o vinculo que tínhamos a ela era de ordem sobrenatural, porem com o advento dos cercamentos fomos cerceados de habitar onde sempre havíamos habitado, a não ser que prestássemos serviços ao “novo” dono das terras, essa lei homogeneizou o que se entendia por território, e saiu da compreensão divina para a compreensão do homem, mais uma vez a homogeneização prejudicou aqueles que são partes integrantes de um todo terreno…

A situação então em que os nobres nos impuseram foi de uma miserabilidade tremenda, pois tínhamos que trabalhar o dobro para nos sustentarmos. Antes quando a terra nos provinha tudo não trabalhávamos do raiar do sol ao entardecer, bastava trabalharmos até quando o sol se colocava a pino, assim já se tinha o que comer para dois dias. Não me lembro dessas eras, pois já havia nascido servo, e como já disse fui criado pela minha avó sendo que ela me contou todas essas histórias e muitas outras.

Sendo servos eu e minha família teríamos de trabalhar no campo todos os dias, sem descanso, mas minha constituição física era muito precária e nunca pude ajudar os outros nos trabalhos braçais. Apesar de sempre lidar muito bem com raciocínio, lógica e outros assuntos filosóficos esses atributos não eram muito úteis a um servo, então tudo que aprendi vem da relação que tive com minha avó, seu nome era Eva e me ensinou, alem do meu passado, histórias de seres sobre naturais da minha terra – até mesmo algumas de outros lugares – seus poucos conhecimentos a cerca das musicas folclóricas e, especialmente, sua sabedoria para com as ervas, habilidade que me foi e me é muito útil.

Na casa em que habitava moravam, alem de minha avó e eu, mais meu pai, de nome José, homem rude e simples do campo, e mais meus dois irmãos, Gabriel e Miguel. Minha mãe havia morrido um pouco antes de me dar a luz – por conta disso não tomei de seu leite e por isso da minha constituição física ser precária – seu nome era Maria. Minha avó dizia que possuía um coração muito bondoso e que, assim como eu, tinha uma sensibilidade especial, quase que um dom, para com a comunidade da vida.

A relação que travava com o restante dos familiares nunca fora das mais amistosas, pois me achavam um empecilho, não poderia ajudar no sustento da casa, mas mesmo assim me relevavam, pois fazia companhia a minha avó, achavam-na meio doente, beirando a sanidade mental, quase que com o próprio demônio no corpo e como não poderiam fazer estardalhaço achavam melhor eu poder ficar com ela trancado em casa.

Assim foi toda minha infância e adolescência. Ao completar 52 primaveras minha avó veio a falecer, completando seu clico neste mundo. Quase que concomitante meus irmãos ficam sabendo que estavam precisando de homens para as cruzadas nas terras de fogo, vendo assim uma oportunidade em endinheirar-se fugiram os dois de casa, deixando meu pai sozinho no trabalho, a situação a partir dai só veio a piorar. Somente com meu pai trabalhando nas terras, não conseguia prover o que o senhor estava acostumado a receber e assim começou ficar endividado. Numa noite sem ninguém ver, quando eu ainda estava dormindo, também partiu me deixando sozinho ao léu.

Quando me dei por conta estava sozinho de manhã, e assim foi por cinco dias, a água já estava acabando e a comida havia acabado a um dia, as autoridades vieram em busca de meu pai. Falei que não sabia e foi-me dito tudo. O senhor das terras – das quais não era dele de fato – me vendo nesta situação não me cobrara nada, não porque era bondoso, mas porque eu era inútil a ele, e resolveu assim perseguir meu pai.

Depois disso comecei a viver na vila pedindo esmola, e cada vez mais os ensinamentos de minha avó penetravam em minha cabeça e não conseguia mais parar de pensar. Refletia se estava ficando como ela, mas isso não importava. Comecei então por em pratica tudo que ela havia me ensinado, assim comecei ganhar certa notoriedade na vila como erveiro e curandeiro, assim certas pessoas me davam o que comer e às vezes lugar para dormir.

Certa noite um homem muito doente apareceu no beco onde costumava devanear me pedindo ajuda. Seu caso era realmente serio, mas logo me dispus a ajudá-lo. Ao termino da “cura”, levei o homem até sua residência onde poderia descansar, passados alguns dias – aproveitando para comer e dormir – o tal homem melhora e se mostra eternamente grato ao que fiz por ele, me perguntando se quisesse morar com ele, pois sendo uma pessoa sozinha não haveria problemas. Aceitei a proposta e comecei a lhe conceder quase toda a verba que me davam com os tratamentos que fazia para ele em forma de pagamento.

Numa noite quando estava sozinho na casa Elias – nome do tal homem – havia saído para algum bordel, escutei alguém bater a porta, abri e vi uma figura no mínimo fora dos padrões, no ato lembrei de minha avó e suas histórias, mas relevei e o deixei entrar. Havia me dito que tinha escutado sobre mim e que sabia tratar das pessoas, mas o que mais havia lhe chamado a atenção era que me achavam excêntrico e quem sabe um pouco fora de si. Disse-lhe que era besteira acreditar no que os outros diziam e que se me conhecesse não diria nada disso – o que era uma mentira, pois Elias sempre dizia que eu era uma pessoa única, mas única num sentido perturbador. Perguntei então o que tinha vindo fazer na minha morada, mas quando perguntei comecei ver vultos nos lados de meus olhos, imagens terriveis, não entendia direito o que eram, mas aquilo se tornou amedrontador, esse medo, de uma hora para outra, se elevou as alturas, nunca havia sentido tal medo e esse homem olhando para mim mostrou sua verdadeira face e disse:

– Parece que a velha não era tão doida assim como diziam não é minha criança?

(Por que não???)

O Inimigo

Minha juventude não se passou de um furioso temporal

Entrecortada aqui e ali por sóis brilhantes como espelhos;

Os raios e a chuva devastaram quase todo o material,

Que só restam em meu jardim muitos poucos frutos vermelhos.

Eis que eu cheguei ao outono do pensamento,

Em que é preciso utilizar a pá num acúmulo

Para dar às terras inundadas um novo alento,

A água abre fendas grandes como um túmulo.

Quem sabe se novas flores em que se creia

Encontrarão neste solo lavado como a areia,

O místico alimento do vigor e da renovação?

– Ó dor! Ó dor! o Tempo engole a vida,

O obscuro Inimigo que nos rói o coração

Do sangue que perdemos tira sua comida.

Charles Baudelaire em “As Flores do Mal”.

Numa caminhada de 40 minutos

 A sirene toca. Já é hora de parar de ler. Encaminho-me para a saída e resolvo comprar uma cerveja a final de contas é sexta-feira. Bebo penso e me perco. Saio do meu universo quando percebo um olhar duro. Continuo. De trás vem um que para e percebe uma chave no chão. – De quem será que é? Bom vo dexa na farmácia. Viajo para dentro de minhas lembranças…Muita cerveja num bar da Avenida João Dias. É um boteco que costumamos beber e já passou da hora de ir para casa. – Vamos que já ta tarde. Amanhece e onde estão minhas coisas? Tudo? Não. Cadê a carteira? Ligação. – Alô?! Eu to com uma carteira que achei no chão. Vi um número de telefone e resolvi ligar.  Quer me encontrar para pegar ela? Desconfio mas é muita dor de cabeça arranjar tudo pra tirar a 2º via dos documentos. – Quando e onde o senhor pode me encontrar? Aqui mesmo na João Dias as 19:00 pode ser? Ta certo. – Olá muito obrigado gostaria de lhe agradecer como posso recompensá-lo? – Dinheiro? Claro que não! Ta vendo aquela igreja universal? Vou me casar lá esse fim de semana apareça e estamos quites…Volto. Passam por mim pessoas que nem olham para mim perdidas nos seus mundos assim como eu estava ou simplesmente me ignoram. Dois senhores sentados de repente interrompem essa não-existência. – Boa noite! Boa. Atravessando a rua um carro da policia vem devagar. Olham-me. Medem-me. Lentos muito lentos. Chego ao apartamento e vejo os trabalhadores noturnos entregarem comida à burguesia. – Boa noite! Boa noite e abaixam a cabeça. Mas que merda! Aperto o botão. 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 T. Placa. Lei Municipal Nº 11.995 de 16 de janeiro de 1996 fica vedada qualquer forma de discriminação em virtude de raça sexo cor origem condição social idade porte ou presença de deficiência e doença não contagiosa por contato social no acesso aos elevadores de todos os edifícios públicos municipais ou particulares comerciais industriais e residenciais multi-familiares existentes no Município de São Paulo. Porque será que as pessoas que trabalham no prédio como empregadas domesticas utilizam somente os elevadores de serviços? Chego. Entro. Sento. Relembro.

O OUTRO LADO DA RUA

Estava eu caminhando pelas ruas de SP em direção ao trabalho e, como de costume, percorrendo o mesmo trajeto que faço diariamente. Foi ai então que me permiti a pergunta, “por que será que faço o mesmo caminho sempre?”, e como numa fração de milésimos de segundos a resposta logo veio, “porque esse é o caminho mais curto para se chegar ao trabalho”. Que saco.
Diante de tal perplexidade determinista continuei a caminhada com as mesmas passadas de perna e com a mesma visão da rua. Foi quando neste exato momento que me ocorreu uma Outra indagação, “será que se eu for para o Outro lado da rua, na calçada do Outro lado, terei um Outro dia?”. Resolvi então experimentar o Outro. Quando cheguei ao Outro lado enxerguei um Outro mundo que Outrora para mim parecia distante. Este Outro lado tinha Outras visões, Outras experiências, Outras pessoas, Outros lugares e até mesmo Outro tempo. Fiquei maravilhado com esse Outro lado que nunca havia visto e ao  fazer uma vista panoramica observei o Outro lado da rua, o lado do qual sempre havia caminhado, e tive Outra perspectiva, janelas que de perto não via, pessoas, que antes próximas, não reparava…Caraaamba.
Chegando a um determinado ponto do trajeto Tive que voltar para o Outro lado, o lado de sempre. Atravessando a rua passavam muitos carros que, aliás, me impediram de retornar ao meu lugar, e quando lá cheguei pensei, “bom, agora não vou ver Outra coisa, a não ser o de sempre”, mas foi ai que reparei Outras pessoas, Outros acontecimentos, até mesmo Outra vida. Chegando ao trabalho, depois de muito refletir sobre minha experiência, pensei, “se o simples fato de experimentar um Outro lado da rua me fez refletir e sentir tantas Outras coisas, porque não fazer amanhã um Outro caminho, mesmo que este seja o mais longo?”.
  1. fevereiro 18, 2009 às 3:03 am

    Nossa muito bom, e profundo também. Galera, recomendo a todos olhar e refletir esta mensagem!

  2. março 5, 2009 às 12:08 am

    Poxa Vitor, esse texto do jardineiro é demais.

  3. abril 27, 2009 às 8:42 pm

    Amei professor, muito bom! São reflexões muito boas… Essa ultima me fez pensar bastante… Á quem ler fica uma dica:”Olhem cada frase e pensem separadamente, depois juntem tudo e veja que uma nova ideia irá surgir!”

  1. fevereiro 26, 2010 às 2:13 pm

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