“*Artigulando*”

Artigular é articular artigos, esses podem ser aqueles que lemos em jornais, revistas (digitais ou não), blogs, wikis e toda a gama de possibilidades leiturísticas que encontramos na contra-mídia. 

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O real para além da verdade: Uma contribuição para as reflexões de AltDelCtrl 

Assim como o historiador Koselleck (1992) ressalta, as palavras, ao longo dos anos, passam a ter outros significados dependendo do momento histórico de que uma dada sociedade ou cultura vive, portando os conceitos, do qual não são meras palavras, mas um aglomerado de “atitudes semânticas”, também se transfiguram, sendo assim se re-significam. 

Rastreando a trilha deixada por AltDelCtrl no texto “O real para além do rei” vale a pena desferir mais uma punhalada à noção de “realidade” da qual coloca – aqui trato “realidade” como um conceito, portanto que possui um reflexo prático na vida das pessoas. O autor nos joga à cara como que a “realidade” se mostrou sempre de forma monstruosa, desde o momento em que surge, nas dinastias reais, até sua supressão com os San-culottes, os comunards, enfim, todos aqueles que lutavam por uma justiça popular, uma justiça que não era imposta pelo que vinha de fora, mas que emergia do povo, do seio de sua organização espontânea. 

A partir daqui parto então de outro ponto, parto de um outro momento da noção de “realidade”. Esse conceito, no que tange o sentido do rei, depois de ter sido destroçado – mas não completamente extinto – pelo materialismo, seja ele positivista ou dialético, não foi destituído de seu trono assim como o rei, mas foi colocado em outro patamar do qual se legitimava como “o verdadeiro”. Depois dos séculos “reais”, nasce no século XIX outra “realidade”, da qual se auto proclamava a Verídica, a Correta, pois não possui mais as místicas religiosas, as crendices populares, a alienação das massas, mas se pautava somente nas “coisas como elas são”, ou seja, no status ontológico, na materialidade dos objetos e dos acontecimentos, portanto na “realidade” tal como ela é. Assim nasce no século XIX um novo deus, a Ciência. 

Durante todo o século XIX, e até a metáde do XX, a ciência imperou como a “realmente” verdadeira. Os resultados de que dela provinham davam aos governantes um maior grau do exercício de poder. Utilizando-se de seu método, seja ele cartesiano, newtoniano ou mesmo darwinista, poderíamos acabar com nossos inimigos, podíamos desmerecer experiências possíveis, podíamos dizer que um socialismo é o “real”, o científico, e o resto meramente idealista, utópico, abstração da mente humana. 

Em 1917 com a Revolução Russa percebemos que não necessariamente o socialismo científico era o “real”, pois a bravura dxs revolucionárixs da Ucrânia nos permitiu abrir o futuro para possibilidades diferentes, mas a mão despótica da ciência, “realmente” “real”, esmagou todxs nossxs companheirxs. 

Acho que os “idealistas” não desistem, pois se tenta, novamente, na Espanha em 1936 o “sonho” do socialismo libertário. Mais uma vez as forças do capetalismo internacional, amparado pelas forças Estatais da França, Inglaterra, Espanha e URSS, nos dão uma rasteira. Nossos “irmãos” socialistas da URSS, por acharem perda de tempo ou por temerem um outro futuro, apunhala-nxs pelas costas. 

Experiências do passado – mas também do presente – não podem ser esquecidas nem mesmo desperdiçadas, olhemos para o passado a partir do presente para podermos encontrar novas estratégias, novas frentes, novas lutas, novas formas de ser. O emergir das pluralidades, que começam a serem visíveis a partir da década de 60, como xs indígenas, xs negrxs, as mulheres, dentre outrxs várixs excluídxs do sistema capetalista, que se encontra na roupagem neoliberal, nos permite ver um novo socialismo, um socialismo que cresce dos MOVIMENTOS POPULARES, e de suas próprias lógicas. As explicações desses novos sujeitos a dita “realidade” estão destituindo, descentralizando, a experiência de poder das mãos da ciência. Mas não sejamos inocentes, quando afetados aqueles que anseiam o poder ocorre a reação, assim como bem colocou AltDelCtrl

“…a centralização de poder e autoridade em si reduzem o poder e a autoridade de outros com o intuito de evitar o surgimento de figuras de contestação” 

Por isso que as idéias organizacionistas de Mikhail Bakunin e Errico Malatesta se tornam tão importantes, pois é dessa forma que garantimos que a vontade do povo e a justiça popular prevalece. 

 

POLICIAIS FANTASMAS DE CÉREBROS-ESPÍRITOS COLORIDOS
 

 

Diante do Espetáculo das enchentes e das constantes insatisfações que pairam a atual gestão de Gilberto Kassab, como o aumento da passagem de ônibus, por exemplo, onde  os habitantes da cidade de São Paulo organizam-se e vão as ruas protestar, manifestando assim suas indignações.
Porem sabe-se qual é o pilar que esta ancorada a cultura policial: A truculência. Diante, então, de tais protestos diversas manifestações foram fortemente reprimidas.
No blog Apocalipse Motorizado o autor nos relata a forma pela qual o policia trata os movimentos sociais desde o governo de FHC até os dias atuais, sendo estes últimos nada mais do que meras extensões de uma mesma política: 

Além da abertura dos mercados e da privatização de estatais, a principal realização do governo FHC foi o sufocamento violento de todos os movimentos sociais, que viviam tempos de ebulição… A “Era FHC” foi, provavelmente, o momento histórico da curta vigência da democracia no país em que mais se utilizou as forças policiais e militares contra a população. Nenhum presidente eleito repudiou, ironizou, desqualificou e reprimiu tanto as manifestações populares quanto FHC. 

A história, por mais que seja trágica, do uso da força contra pessoas que desejam manifestar sua insatisfação já não é mais novidade, mas ainda sim continua sendo revoltante. As justificativas que nos são dadas a cerca da violência usada pela policia direcionam-se a uma “Ação Preventiva” que impede os possíveis atos que manifestantes “poderiam cometer”, tai justificativa torna-se mais intrigante a questão do como que funciona a lógica policial.
Para que uma ação policial seja preventiva terá de ocorrer uma valoração do sujeito como possível suspeito de atos subversivos, mas essa ação não pode ser, e nem ao menos têm como ser, feita apenas por policiais, portanto terá de haver sinergia da ação para com a sociedade fazendo com que o controle seja aberto a todos e para todos, cartografando assim os desvios de um sistema que se pretende em uma direção. Tal cartografia forma um holograma de olhares, uma biopolítica,  que julgam e denunciam os que estão para além dos muros da moral instituída, sentrando assim a politica no ambito mais psosaico, na vida cotidiana.
Para que possamos entender tal processo holográfico e como que os valores policiais são interiorizados pela sociedade tomo emprestado o conceito de “policial fantasma” expresso por AltDelCtrl, no texto “Policiais fantasmas em roupas coloridas”. Elaboremos uma reflexão sobre o que seria esse conceito e se é possível ser aplicado na prática.
Segundo o autor ser policial fantasma “é uma atitude com relação ao outro”, portanto está no entre da relação eu e tu, está além do que podemos ver, portanto está além então do mundo da materialidade nos adentrando então no mundo da imagem.
Segundo Guy Debord, em seu livro “A Sociedade do Espetáculo” na tese de número 4, nossas relações, hoje, são mediadas por imagens, o que fica mais claramente expresso nas palavras do autor: 

O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens. 

Imagens estas que podem ser criadas ao gosto daquele que irá utilizá-la, portanto não sendo possível saber ao certo se o que vemos à nossa frente é real ou não, se é ou não é uma simulação, tal pensamento é melhor articulado nas reflexões de Jean Baudrillard em seu livro “Simulacros e Simulações”.
Por tanto o que AltDelCtrl joga à arena do debate não concerne ao mundo da visão objetiva, mas ao mundo de uma pré-visão. É anterior a uma intencionalidade das ações e reflexões, está, portanto, embutida nas entranhas de nossas vidas. Se for assim entramos no que chamamos de cultura, sendo que neste caso particular numa área de estratificação cultural de uma epistemologia policial, por isso fantasma. Fantasma por que não nos assombra desde hoje, mas sim espírito de algo que achavamos ter exorcizado. 

Vejamos então se na história encontramos os resquícios desse espectro ainda em vida. 

Na época em que o Brasil experenciou a ditadura militar (1964 – 1985) ocorreu uma extensa proliferação de instituições organizacionais, pois ao passo que o Estado começa reger todos os meandros econômicos, políticos, sociais e culturais começa a surgir uma enorme departamentalização de todos os aspectos da vida, assim o Estado começa também a incutir sua lógica organizacional no “espírito” das pessoas, formando um imaginário de como que formamos uma organização social.
Com a alta burocratização das instancias de poder do Estado começou-se a precisar de pessoas aos novos cargos públicos criados pela própria burocracia. O método aplicado para o preenchimento de vagas foi através do “mérito”, criando assim uma hierarquização horizontal da relação de trabalho, pois somente os mais aptos poderiam ser “dignos” de ser um funcionário publico, aqueles que estão “embaixo” só estão nessa posição porque são incapazes de realizar as tarefas melhor do que aqueles que conseguiram a vaga.
Este é um dos movimentos que beneficiou o brotar da semente policial fantasma. Um exemplo disso hoje é nossa constante reclamação da péssima qualidade de professores da rede publica de ensino que, apesar de serem mal pagos, se aproveitam das benesses do Estado há décadas. Qual será então a solução para o ensino da rede pública?
Já que existe um imenso exército de reserva de professores formados após a neoliberalização do ensino superior da década de 1980, realizemos um concurso publico para selecionar os mais aptos, e se por um acaso os professores que já estão na rede não conseguirem alcançar uma nota adequada será jogado na sarjeta como todo mundo, não importa se el@ tiver 30 anos de profissão.
Segundo dados do jornal da Folha de São Paulo do dia 23 de janeiro de 2010 cerca de 48% dos professores da rede publica de ensino do Estado de São Paulo não conseguiram atingir a meta de acerto de mais de 50% da prova, o que iremos fazer agora? Aplicar outra prova, mas agora para um novo contingente de pessoas, substituindo assim a mão de obra velha e desqualificada por uma mão de obra mais “nova” e mais “adaptada” (novas e adaptadas = não sofreram ainda as humilhações cotidianas que professores sofrem todos os dias, e com isso não digo que seja da parte dos estudantes) as contingencias do mundo contemporâneo.
Continuando na ditadura militar do Brasil, notamos também o combate que havia entre os comunistas e o poder vigente, isso já é mais do que batido, mas não notamos outra guerra ocorrendo no interior desta. Refiro-me a guerra da informação.
Quando um militante de esquerda era torturado faziam o possível e o impossível para lhe retirar informações referentes aos seus companheiros, porem isso também ocorria nas entranhas da sociedade. Muitos apartamentos, casas e estabelecimentos afins foram invadidos a partir da denuncia dos “bons cidadãos brasileiros”, assim foi o caso da reunião em Ibiuna da União Nacional dos Estudantes (UNE) na década de 1960, no qual só foi invadida através da denuncia do estranho volume de pãezinhos que haviam saído nas mãos de jovens cabeludos.
Agora, com a denuncia, podemos nos precaver de ações subversivas antes mesmo de acontecerem. Essas denuncias poderão ser feitas pelos próprios cidadãos, por qualquer um com “espírito” vigilante.
Mas desde quando a denuncia é uma forma de disciplinarização? Essa é uma questão que os historiadores da educação poderiam pesquisar, pois minha primeira experiência com denuncia foi na escola. Quem já não foi dedurado na escola? Se você disser que não esta mentindo. Esta é uma atitude que é incentivada pelos próprios pedagogos quando colocam um “responsável” pela sala de aula – geralmente o puxa saco – quando querem “resolver” coisas fora de sala de aula. E com sua caneta e papel o pequeno policial anota o nome dos baderneiros indisciplinados.
O fantasma do fascismo ainda nos assombra. Todos os dias. “Policiais fantasmas” existem de monte nas ruas vestidos com roupas suas coloridas, mas ainda bem que também consigo ver outros Outros no meio dessa multidão que atuam como “caça” fantasmas policiais. 

 

REVISITANDO O PASSADO PARA REESCREVER A DITADURA MILITAR NO BRASIL

O conceito de terrorismo como entendemos hoje, ou seja, em seu aspecto moderno, começa na dita Revolução Burguesa de 1789(visto que tais práticas podem ser encontradas na Grécia desde o nascimento da “civilização” ocidental, mas que podemos cometer o erro de anacronismo se o categorizarmos como tal), quando aqueles que detinham o poder econômico, a burguesia, toma de assalto o poder político do antigo regime (a aristocracia). Tal feito só é realizado devido à entrada em massa das camadas excluídas da sociedade de então, os primeiros proletários e camponeses. Com a intensificação das reivindicações sociais o Estado burguês toma suas devidas providencias para impedir a radicalização da revolução, assim começa o Terrorismo de Estado através de sua arma mais emblemática, a guilhotina.
Como vemos o surgimento da práxis terrorista começa com o aparato repressivo do Estado como forma de contenção de um processo revolucionário que tem como força o seu caráter emergente, portanto uma força que vem de baixo para cima, ou da periferia ao centro.
Ao longo de toda história da modernidade vemos essa pratica espalhar-se como forma estratégica de luta, tanto para manter o status quo quanto para derrubá-lo. Um dos exemplos mais marcantes na história da prática terrorista, utilizado tanto pelo Estado quanto pela população, é o caso da guerra de independência de Argel, país que foi ocupado pela nação francesa de 1865 a 1962.
A ocupação francesa se funda no saque das matérias primas do território argelino, isso tudo em nome do progresso industrial. Tal atmosfera foi criando um sentimento de revolta da população, da qual se via estrangeira em sua própria terra. Este sentimento foi contido até os primeiros ataques à população por parte de alguns representantes do governo, policiais, e da burguesia argelina, os chamados pied-noirs (colonos franceses principalmente, mas podiam ser de outras nacionalidades européias), que, clandestinamente, jogam uma bomba em uma das zonas residenciais argelinas, e a partir de então ataques terroristas explodem em ambos os lados. O governo francês, para poder conter a revolta popular, convoca as forças militares para desintegrar as organizações populares, e é neste momento que são desenvolvidas as técnicas de tortura que conhecemos.
No caso do Brasil a história se repete, mas enquanto farsa (como diria Marx), pois diante das forças populares da década de 1950 gritando “Terra para Todos” ou “Reforma Agrária”, as forças militares e a burguesia unem-se para reprimir a população dando o golpe militar no então presidente João Goulart. Estas forças populares, durante toda a época da ditadura, sempre existiram, não largaram seus ideais e continuaram lutando. Mas porque que temos então um sentimento repulsa tão profundo para aqueles que foram silenciados? Porque será que vemos a imagem do terrorista e não do irmão? Estas perguntas poderiam ser explicadas se caso fossemos analisar os aparatos ideológicos que o Estado militar se fez tão presente como os jornais, as musicas, as escolas, o trabalho e até mesmo a família, mas não vou-me prolongar mais e sim terminar com uma frase de um certo cara da física: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade”, esta foi conhecida como a III lei de Newton. Vejo os atos ditos terroristas, por parte da população, como uma reação à privação das liberdades. Uma privação que proibe ate mesmo de falar Liberdade.


 
Bibliografia:
 
DEGENSZAJN, André R. Terrorismos e Terroristas. Tese de mestrado em ciencias sociais
LIPPOLD, Walter Günther Rodrigues. O pensamento anticolonial de Frantz Fanon e a Guerra de Independência da Argélia.

A BATALHA   de Argel; Direção  de Gillo  Pontecorvo;  Produção  de Yacef  Saaid; Argel: Casbah Films, 1965. (vídeo).

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