Tempo(s) da(s) história(s): Minha interpretação do filme “Corra Lola, corra” de Tom Tykwer
Texto elaborado para a disciplina de Sociologia da PUC-SP no curso de História
O filme “Corra Lola, corra” nos possibilita pensar em diversas possibilidades acerca da perspectiva do entendimento de história a partir da interface fílmica, pois se encararmos que a história é – enquanto ciência disciplinar de origem ocidental – uma concepção de tempo que nos é, muitas vezes, imposta por uma forma de racionalidade onde esconde outras possíveis alternativas de entendimento temporal, a temporalidade que o filme nos mostra ao longo de seu percurso nos faz refletir sobre o passado, o presente e o futuro.
De acordo com a noção de Santos (2002) sobre a indolência da razão ocidental o tempo é apresentado como um fragmento do rastro de cometa que se estende ao infinito do espaço, portanto o futuro é ampliado para poder comportar o crescimento acelerado do mundo civilizado, ao passo que o passado é estático, fixado a uma realidade já posta, definida, assim o presente é a mera repetição desse passado opressor. Os sujeitos da história ficam então a mercê de um futuro determinado pelo passado restando-nos somente olhar para tudo de forma a contemplar as dores de um presente efêmero.
A forma pela qual o filme é disposto – enquanto abordagem epistemológica do tempo – nos revela a negação do desperdício das experiências do passado, pois ao passo que as personagens, em seus últimos suspiros, acionam a memória e relembram conversas que já tiveram atualizam seus significados para as dificuldades que enfrentam no presente, assim possibilitando-os retomar seus esforços para uma nova tentativa, mas já precavidos de empecilhos experiênciados. O tempo aqui se mostra então diferenciado a partir do momento em que olhamos para o passado com a perspectiva do presente, pois mergulhados no presente, no qual tudo coexiste simultaneamente, o passado se transfigura[1] criando uma nuvem nebulosa repleta de incertezas, aqui se manifesta a possibilidade de um novo futuro.
Quando realizamos tal empreitada efetuamos três processos dos quais merecem ser ressaltados. A primeira esta na valorização do presente, pois é no presente que podemos observar as experiências que não devem ser desperdiçadas, essas experiências é que nos vão levar à passados. Tal procedimento chamo de rastreamento ou tracking[2].
Para entendermos o que digo sobre rastreamento temos que retomar o momento em que “o ser humano” veio a ser “ser humano”, muito bem expresso por Quinn (2002). Diversos estudos arqueológicos hoje nos dizem que o que nos tornou seres inteligentes foi o reconhecimento de padrões, e que conseguimos alcançar tal efeito através do consumo de carne animal, ou seja, proteína, desenvolvendo assim nosso cérebro frontal, mais especificamente, o córtex cerebral. Porem hoje já se sabe que essa teoria esta ultrapassada, pois como que consumiríamos carne se não conseguíssemos caçá-la? Mesmo se comecemos a principio apenas carniças o número existente de animais carniceiros é muito grande, portanto a disputa por carne também seria. Para podermos nos diferenciar de outros animais inventamos a técnica, ou ferramenta mental, da caça, na qual se baseia em rastrear o “alvo-chave”, para tal ação desenvolvemos dois dispositivos essenciais, o olho e a fala.
O olho nos permitiu observarmos o chão e reconhecermos as pegadas, os sinais, sempre em formato de fragmentos, deixados pelos animais que perseguimos. Tais sinais, padrões fragmentados, uma vez que relacionados à figura do animal desenvolveu a técnica da caça, portanto partindo do presente o caçador rastreava a trilha fragmentada deixada pelo animal, conseguindo encontrá-lo e abatê-lo. Este reconhecimento de padrões, de pagadas fragmentadas fez com que nosso cérebro mudasse de estrutura, ou seja, alterasse suas redes neurais. Todavia o desenvolvimento do olhar ainda não nos tornou “seres humanos”, pois seria com a inclusão da fala que terminaríamos tal processo.
A fala nos possibilitou passar a informação a nosso vizinho, ou seja, a pessoas que se encontram a nossa volta. É com a fala que tal experiência, na qual foi testada por diversos indivíduos muitas vezes, se torna visível a toda uma cultura viabilizando a efetuação desta experiência social de rastreamento para outras pessoas e é neste momento que ocorre a passagem do australopithecus ao homo.
Portanto não foi criando modelos teóricos que deixamos de ser australopithecus. Não foi brincando de Deus que viemos a ser hoje aquilo que somos. Não podemos jogar com o tempo, não podemos achatá-lo dando-lhe aspecto linear e homogêneo, esta não é minha proposta.
O segundo processo refere-se ao como olhamos para o passado quando partimos do presente utilizando o rastreamento. O passado dessa forma deixa de ser estático, não mais está dado, pois no momento em que rastreamos o passado, ou trilha, nos emergem acontecimentos que muito corresponde com a forma que interpretamos ou traduzimos os sinais que vemos, os padrões que enxergamos, as pegadas que observamos. Por isso o processo de tradução dos fatos históricos, ou não históricos, esta intrinsecamente ligada à nossa subjetividade. O passado então por ser transfigurativo, disforme, aponta para um futuro mergulhado na incerteza, sendo que este é o terceiro processo necessário para uma nova compreensão de tempo.
O terceiro processo é, justamente, encarar o futuro como aberto, incerto. Segundo essa perspectiva a retomada das Utopias se mostra possível, mas não com a mesma arrogância que tínhamos antes, mas respeitando as organizações locais autogestionárias, respeitando conhecimentos ditos menores que vem “de baixo para cima” como possibilidade contra hegemônica. Uma nova luta se forma no seio de toda essa fragmentação, uma luta de camponeses, de negros, de homossexuais, de mulheres, de operários, enfim, uma luta por todos os excluídos do sistema capitalista que em sua nova face encontra-se o neoliberalismo, no qual é amparado pela força do Estado. Por isso, antes de tudo, essa luta é uma luta anticapitalista.
O filme “Corra Lola, corra” então nos faz pensar em como nos posicionaremos diante de nossas histórias, portanto de nossos passados, nossos presentes e nossos possíveis futuros. Como dizia o anarquista russo Mikhail Bakunin:
“Foi na busca do impossível que o homem realizou e reconheceu o possível”.
A história não termina por aqui…
Bibliografia:
- BENJAMIN, Walter (1940). Sobre o conceito da História in Obras escolhidas I – Magia, Técnica, Arte e Política. Editora Brasiliense.
- QUINN, Daniel (1996). História de B, Uma Aventura da Mente e do Espírito. Editora fundação Peirópolis.
- SANTOS, Boaventura de Sousa (1996). A queda do Angelus Novus: Para além da equação moderna entre raízes e opções in Revista Crítica de Ciências Sociais, Nº45.
- _________(2002). Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências in Revista Crítica de Ciências Sociais, Nº63.
[1] A noção de transfiguração da qual me faço uso é a partir da “transfiguração de Jesus Cristo” que se encontra na bíblia sagrada Mateus 17:1-9, Marcos 9:2-9 e Lucas 9:28-36, sendo esta ultima a que me utilizo.
[2]Retiro a noção do conceito de tracking ou rastreamento das ferramentas da internet para rastrear na rede informações que são pertinentes ao usuário pelas palavras-chave, assim como realizada pelo Google.
A Democratização do Poder na Ditadura Militar do Brasil
texto feito para aula de Brasil III da faculdade PUC-SP
Sou um dissidente da verdade. Desenvolvo uma teoria irônica cujo objetivo é formular hipóteses. Lanço mão de fragmentos e não de textos unificados por uma lógica rigorosa.
Jean Baudrillard
De acordo com as múltiplas perspectivas a cerca da época que compreendeu a ditadura militar no Brasil (1964 a 1985) notamos que as liberdades das quais alguns grupos de resistência, como os grupos/indivíduos artísticos ou as guerrilhas urbanas armadas (e camponesas como no caso do Araguaia), não foram alcançadas ou foram re-significadas de acordo com as necessidades contingenciais do processo de (re) democratização do Brasil. A questão então do exercício da liberdade em desacordo com o poder se mostra de essencial importância para a compreensão do conceito de democracia, o qual é produto do projeto eurocêntrico de modernização, pois assim podemos verificar como a noção de poder, por vezes, pode caracterizar o recenseamento da liberdade de organização individual ou coletiva.
Mudando então o posicionamento angular a cerca do poder revelamos uma nova faceta na qual o filosofo Michel Foucault se torna fundamental:
“(…) o poder não se dá, não se troca nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação, como também da afirmação que o poder não é principalmente manutenção e reprodução das relações econômicas, mas acima de tudo uma relação de força. Questão: se o poder se exerce, o que é exercício, em que consiste, qual é sua mecânica?”[1]
Para a resposta de Foucault o período da Ditadura militar se mostra revelador, pois o projeto civilizatório modernizador, introjetado na mentalidade coletiva, se pautava essencialmente na burocratização do Estado e da disseminação na sociedade civil, chegando às esferas microscópicas do trabalho, família e amigos.
Quando analisados os dois artigos do jornal Folha de São Paulo, de Marco Antonio Villa e Marcelo Ridenti, o que mais se mostra é que a Ditadura modernizou o Brasil implementando medidas nas quais incentivava a economia, ciência e cultura nacional, porem com algumas diferenças no que tangem a abordagem repressiva e salvacionista. Marco Antonio Villa escreve, comparando a “ditadura à brasileira” com outras ditaduras do Cone Sul:
“Enquanto a ditadura argentina fechou cursos universitários, no Brasil ocorreu justamente ao contrário. Houve uma expansão do ensino publico de terceiro grau por meio das universidades federais. Sem esquecer várias universidades publicas estaduais que foram criadas no período, como a Unicamp e a Unesp em São Paulo…A Embrafilme – que teve importante papel no desenvolvimento do cinema nacional – foi criada no auge do regime militar, em 1969. Financiou a fundo perdido centenas de filmes, inclusive de obras criticas ao governo (o ministro Celso Amorim presidiu a Embrafilme durante o regime militar). A Funarte foi criada em 1975 – quem pode negar sua importância no desenvolvimento da musica, das artes plásticas e do teatro brasileiro?…A ditadura argentina privatizou e desindustrializou a economia…Já o regime militar estatizou grande parte da economia. Somente o presidente Ernesto Geisel criou mais de uma centenas de estatais. Os governos militares industrializaram o país, modernizaram a infra-estrutura, romperam os pontos de estrangulamento e criaram as condições para o salto recente do Brasil, como por meio das descobertas da Petrobras nas bacias de Santos e de Campos nos anos 1970”[2].
Marcelo Ridenti escreve:
“Ao contrário do que inicialmente pensaram seus adversários, a ditadura não impôs um projeto ‘arcaico’, mas, sim, de modernização da sociedade. Não pelo viés do capitalismo de massas, sonhado por Celso Furtado e outros nacional-desenvolvimentistas antes do golpe. Houve um processo de modernização autoritário, ou seja, os governos promoveram o desenvolvimento, embora à custa do cerceamento das liberdades democráticas e com grande concentração de riquezas.
Outro paradoxo: a modernização exigia profissionais capacitados – e muitos deles eram de oposição. Foi assim que amadureceu, por exemplo, uma indústria cultural digna desse nome sob a ditadura, que, com um braço, incentivava a cultura, censurando-o com outro. Professores incômodos eram afastados, ao mesmo tempo em que financiavam as pesquisas e a tecnologia, até no meio universitário mais hostil ao regime”[3].
Ambas as falas, por mais distintas que sejam em relação à crença/descrença de uma ditadura autoritária ou mais branda, concordam que o ponto nevrálgico foi que o período de 1964-85 modernizou o país dando um salto de desenvolvimento cultural, científico e econômico pautados por um posicionamento nacionalista de raízes positivistas. Tais modernizações são expressões de uma mentalidade que leva em consideração, principalmente, a forma universal de organização, pois pautadas por uma concepção de linearidade temporal o processo evolutivo se dá numa escala progressista que culmina na Civilização. E para se alcançar tal patamar evolutivo o aparato mais usual é a utilização de instituições altamente hierarquizadas – tão proliferadas como já ditas por ambos jornalistas – que materializam o exercício do poder.
Dois exemplos, das diversas instituições criadas pela ditadura, foram as chamadas “comunidade de informações” e “comunidade de segurança” em combate aos grupos opositores ao governo. Suas estruturas organizacionais se baseavam no rígido e inflexível formato militar, onde os cargos eram compostos também por militares que tinham como função “superintender e coordenar as atividades de informações em todo o território nacional” o que “paulatinamente foi buscando recolher informações também no exterior, sobre tudo em relação aos países da América Latina”[4] como no caso do SNI e combater a subversão e o terrorismo no território nacional pautados por um órgão aglutinador como foi o sistema CODI-DOI.
Apesar do historiador Carlos Fico colocar o SNI em uma posição que não subordinava os órgãos de repressão – sendo que este ultimo possuía uma forma organizacional própria subsidiada pelo apoio da dita “linha dura” dos militares – as instancias das quais os órgãos de repressão se pautavam eram pelas informações colhidas, ou mesmo produzidas, pelo SNI, por exemplo, proporcionando um exercício de poder predecessor à ação da repressão. Poder esse que será dissolvido pela sociedade civil em três esferas.
A primeira consiste em incluir a sociedade civil na organização do sistema de informações como foi o caso da Escola Nacional de Informações (EsNI), pois se “planejava a transformação paulatina do SNI numa agência de civis, como a norte-americana CIA” sendo que a “escola fora criada pelo governo Médici, com base na experiência de um grupo de aproximadamente doze oficiais que estiveram no exterior, por um mês, estudando os serviços de informações de alguns países, como Estados Unidos, Alemanha, Israel, França e Inglaterra” e “cerca de 120 pessoas, por ano, eram formadas pela EsNI e aproximadamente 90 eram civis”[5], ou seja, 75% das pessoas que se formaram na EsNI eram civis e assim foram formatadas de acordo com os dogmas, disciplinas e crenças do regime militar.
A segunda consiste no terror psicológico causado pelo regime, pois ao passo que a tortura se torna um silêncio ensurdecedor, todos temerão à ela, assim o exercício de poder prevalece no momento em que nossa vida é posta em evidencia, portanto temendo o terror da ditadura delataremos qualquer um que não siga os parâmetros exigidos pelo governo e que nos coloque em risco de vida.
E, finalmente, a terceira consiste no discurso da verdade plena voltada para a forma de organização social única e irrevogável, o qual se torna mais claro nas falas do historiador Eduardo Antônio Bonzatto quando compara o Estado classista vinculado ao populismo e o Estado burocrático caracterizado pelo regime militar:
“O Estado Burocrático, contrariamente ao que se imagina, é menos concentrador de poder do que o Estado Classista (populismo), pois sua função é exatamente a de ampliar e distribuir a experiência do poder, na busca de cúmplices. Para tanto, a burocracia recebe um revestimento da competência, um verniz técnico, e não uma distinção classista.
O aumento do número de ministérios, os concursos públicos para suprimento de cargos nos bancos estatais, nas novas e crescentes organizações fiscalizadoras, necessárias aos novos atributos econômicos do Estado representam um compatível aumento entre o tamanho do Estado e seus novos burocratas.
Tal burocracia estabelece uma hierarquia horizontal, dada pela competência e não pelo mando. Desse modo, a experiência do poder é conferida a muito mais pessoas do que aquela do modelo anterior, experimentada exclusivamente pela classe. Basta recordarmos o aspecto cartorial que a burocracia anterior carregava, relacionada à incompetência devida justamente ao privilégio.
Contudo, para funcionar como um projeto social, tal experiência deve ser transposta para a sociedade civil. E existe uma forma dessa materialização funcionar. O Estado Burocrático transfere sua experiência para a sociedade civil por meio do discurso da organização (como já afirmou Chauí em O discurso competente).
Essa transferência ocorre tanto na formatação das indústrias, com suas diversas hierarquias móveis quanto nas associações, nos clubes e, principalmente, nos sindicatos, cuja complexidade, agora, demanda estruturas repletas de lideranças, dentro e fora das fábricas. Assim, a organização de toda uma sociedade pautada pela hierarquia atinge seu ponto alto quando chega ao operário, ao bancário, ao professor, ao gráfico e a suas famílias pela experiência da organização.
Estado, indústria, sindicato, eis o mecanismo projetivo que materializa a internalização da dominação, ocultando o dominador no dominado. Agora muitas pessoas usufruem do poder que o cargo confere e a ordem, essa ordem advinda da organização, estabelece o ocultamento da própria dominação, tornada trabalho, sobrevivência e consumo”[6].
Concluindo e justificando, todos esses processos de inserção de uma mentalidade modernizadora, que possui seu fim na Civilização, proporcionam a disseminação do exercício de poder controlador, portanto uma democratização do poder enquanto cumplicidade de apenas uma forma de ser social normativa e discriminatória perante a diversidade de múltiplas possibilidades de vivências.
“A hegemonia é uma manifestação da vontade humana historicamente construída, urdida com força, cooptação, ideologia e voluntarismo”.
Bibliografia:
BONZATTO, Eduardo Antônio. Belindia, 1964: golpe in Manual da Contra-História na Antimodernidade. www.orbitfiles.com/download/id4069309801.html.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007.
RIDENTI, Marcelo. Cultura e política – os anos 60 e 70 e sua herança in O Brasil Republicano nº4
________________. Tendências/Debates: Ditadura: nunca mais! In Folha de São Paulo.
VILLA, Marco Antonio. Tendências/Debates: Ditadura à brasileira in Folha de São Paulo.
[1] FOUCAULT, Michel. Genealogia e Poder, p.175 IN Microfísica do Poder. Editora Graal.
[2] VILLA, Marco Antonio. Tendências/Debates: Ditadura à brasileira in Folha de São Paulo.
[3] RIDENTI, Marcelo. Tendências/Debates: Ditadura: nunca mais! In Folha de São Paulo.
[4] FICO, Carlos. A Estrutura de Espionagem: O SISNI, p.81 in Como eles agiam. Editora Record, edição 2001.
[5] Idem, p.82.
[6] BONZATTO, Eduardo Antônio. Belindia, 1964: golpe, p.859-860 in Manual da Contra-História na Antimodernidade.
Revolução Mexicana
Texto produzido para a matéria de América III do curso de história
:
Quando passamos a analisar um fato histórico temos de levar em consideração toda a bagagem da qual carregamos no exato momento que produzimos um conhecimento, pois dependendo de quais perguntas que iremos fazer e quais pontos iremos ressaltar o próprio conceito de revolução se modifica, se desloca. Portanto vemos que a realidade concreta é apenas uma parte das múltiplas perspectivas hologramáticas do todo.
Partindo dessa reflexão olhamos as formas que o conceito de Revolução foi forjado e estudado em sala de aula. Através da perspectiva de Hannah Arendt a Revolução se dá numa ruptura abrupta de aspectos políticos, econômicos e sociais do qual o seu fim ultimo é a liberdade. Então para Arendt uma revolução, para que dê certo, terá de ter permanência em quanto forma estrutural, que pode ser alterada se caso a liberdade seja posta em cheque.
No caso de Florestan Fernandes, analisando o golpe militar de 1964 no Brasil, dirá que uma Revolução se dá somente pela via democrática, pois é somente com o desejo da maioria que as mudanças sociais, políticas e econômicas podem ocorrer, diferentemente do golpe.
Já Hector Bruit segue um caminho no qual diz que a revolução ocorre quando a classe oprimida toma o poder por vias violentas, portanto tendo de ser rapidamente implantada não possibilitando a classe dirigente se reestruturar e planejar a contra-revolução.
Quando olho para o ocorrido no México vejo que tais pontos de vista desmoronam aos meus olhos. As grandes figuras que se levantaram contra o governo ditador emergiram do povo e é para o povo que se voltavam. Homens coletivos que sentiram a necessidade de lutar. A figura de Emiliano Zapata e Pancho Villa foram de fundamental importância para que a transferência de um governo à outro se concluísse.
Pancho Villa por muitos anos depois da Revolução ainda não tinha nenhum monumento que lembrasse seus feitos e somente no ano de 1956 inaugura-se uma escultura em sua cidade natal Chihuahua, porem o artista por “ordem do governador, mudou o bigode e a testa. Na inauguração, as autoridades não só omitiram o seu nome nos discursos, como também na placa de bronze. Falou-se apenas do ‘combatente da Divisão do Norte’, cabendo ao povo que assistia gritar: ‘Viva Villa, cabrones!’ ”[1].
Villa tinha um ideário que não se encaixava com as perspectivas socialistas européias, a única coisa que desejava era uma sociedade mais justa e capaz de obter um governo que pudesse prover as necessidades da população mais carente.
No tempo em que governou Chihuahua adotou como lema “fechar cantinas e abrir escolas” tanto é que abriria em apenas 1 mês 50 escolas para uma cidade de apenas 40 mil habitantes, pensava em abrir as colônias militares que, de certa forma, podemos ver como se fosse uma comuna onde os camponeses pudessem viver juntos, trabalhando juntos e desfrutando juntos uma vida melhor. O que podemos dizer então é que Villa tinha uma idéia de reforma agrária, ideal este também visto por Emiliano Zapata.
Zapata era em sua “essência” um homem rude, e até mesmo, para alguns, bárbaro (é claro que se olharmos com olhos de civilizados que somos). Vindo de uma tradição indígena toda sua cultura era voltada para a terra, a qual estava sendo retirada de seu povo em Morelos, portanto seu entendimento de mundo centrava-se na relação com a terra de sua origem. Fato este muito negligenciado pela historiografia, pois se não compreendermos isso não conseguimos entender o porquê da luta de Zapata e do porquê de sua insistência em permanecer centrado nas questões especificas de cada região as tornando autônomas do governo.
Zapata e Villa, homens que queriam apenas justiça. Suas ideias idiossincráticas perturbaram e ainda pertubam aqueles que viveram ou vivenciam suas vidas. O conceito de Revolução se torna volátil às suas ações praticas, não se encaixa no ideário de Villa e Zapata pelo simples fato de não pertencer a uma cultura alheia à (T)terra, Revolução foi apenas um adjetivo dado à possibilidade de mudanças concretas na vida de todos, mudanças das quais sentimos reflexos até hoje através dos gritos em nome de Villa (Viva Villa, cabrones!) ou pela formação do EZLN(Ejercito Zapatista de Libertacion Nacional) em 1994, quando meros indígenas, homens primitivos, homens coletivos gritaram LIBERDADE.
“Yo soy como soy y tú eres como eres, construyamos un mundo donde yo pueda ser sin dejar de ser yo, donde tú puedas ser sin dejar de ser tú, y donde ni yo ni tú obliguemos al otro a ser como yo o como tú”.
[1]WALDIR, José Rampinelli, Pancho Villa e a Revolução Mexicana in Lutas & Resistências, Londrina, n.2/3, v. 2, 1o e 2o sem. 2007
Salas de aulas Rizomáticas
Quem tiver o privilegio de entrar em uma sala de aula, de algum colegio estadual, so que na outra posiçao, a dita posiçao de professor, observará uma instância de complexidade que nenhuma teoria, nem mesmo a da complexidade, conseguirá abarcar.
As salas encontram-se super lotadas, em media 40-50 estudantes, observar que cada um deles possui sua individualidade porem que possuem, no coletivo, suas proprias regras de conduta e etica a imagem se torna uma obra de arte surrealista – Dali ficaria maravilhado com o 2º colegial F.
A posição de professor possui o significante da pessoa a ser enfrentada. As formas de resistência que os estudantes utilizam são variadas, partindo do afrontamento direto (jovens anárquicos querendo, desejando sua loucura) à passividade absoluta na viajens dos pensamentos tão distântes que nem mesmo eles sabem o que estão divagando. Olhar essas resistências é que mais comove. No pasaram!!!
Desista do conteúdo. Se você acredita que o que tem a falar é realmente importante nem tente, palavras se vão. Discursos possuem seu poder? Sim, como ja M.Foucault nos explicou, mas para toda relação de poder há uma resistência. O que importa é como você se coloca para as pessoas, como ja disse a Sandrinha num texto intitulado “A vida em movimento“ a relação de alteridade dialógica “propõe uma vida em Movimento, Percepção de teia, de rede, complexa, plexo com plexo, conexões, eu no outro, o outro em mim” e assim a vida se move, e nos movemos em direção a um caminho que não sabemos para onde vai dar , o caminho é feito por todos no exato momento do contato, do choque, do equilibrio dinâmico, o caminho é o ato de caminhar.
A busca pela “normose” na qual a minha mais nova amiga Amanda ja nos disse no texto e video intitulados “Como reagimos ao diferente” demonstra a dificuldade em lidar com aquilo que desconhecemos gerando principalmente o pré-conceito. A intenção de uma instituição que visa padronizar, moldar, disciplinar, normatizar o sujeito não é encarar o outro como eu, mas de forçar o outra a ser como eu. Numa relação de alteridade a individualidade subjetiva não exclui a possibilidade de reconhecimento no outro, o que simplesmente precisamos fazer é abdocar do poder.
Nossa civilização nos empurra a uma racionalidade exacerbada renegando os sentimentos humanos a outro plano - como meu camarada Steve ja bem expos em seu texto “O eclipse da utopica cruzada civilizatoria”- bem como ao “isolamento, o hiperindividualismo, e o consumismo frívolo, contaminada pela confusão entre a qualidade de vida e quantidade de consumo”, todavia se observarmos no cotidiano, no muito pequeno, nas microrelações encontramos a possibilidade da emergência, a possibilida à resistência, a possibilidade da mudança. Para que isso ocorra precisamos humanizar e relacionar apanas duas pessoas, EU E TU.
A emergência da Emergência
Para começar a introdução de algo temos que ter claro o que pretendemos abordar e saber qual a finalidade de se abordar esse algo. No caso venho aqui com a intenção de analisar os problemas históricos de forma complexa, ou seja, observarmos a historia perpassada por diversos outros tipos de conhecimento, nunca fechada em si, mas que pode entrar em conversação com os conhecimentos mais diversos.
A complexidade enquanto pensamento, a meu ver, possui certos conceitos-chave que precisam ser trazidos à tona e que necessariamente relacionam-se entre si, dos quais são multidão, relação, teia (ou rede), informação e feedback.
Dentro de cada conceito-chave há dois fatores que possibilitam sua integração, a parte e o todo, o individuo e a sociedade. E se olharmos a complexidade com essa lente, no que diz respeito ao individuo e a sociedade em relação, o tema que antes era estudado pelas ciências biológicas e exatas pode inclusive ser estudado pelas ciências humanas, sendo que a intenção maior é me voltar mais para o olhar histórico.
O que difere o historiador das outras áreas de conhecimento é se pautar quase que essencialmente nas fontes para que seja elaborado um estudo científico. As teorias vão se construindo de acordo com a construção da pesquisa. Quando digo que minha intenção é analisar a historia de forma complexa não quero dizer que utilizarei a teoria da complexidade para olhar o passado, mas que utilizarei dos conceitos que ela me oferece para uma melhor compreensão do passado.
Diversos estudos históricos já se voltaram para o tema da multidão, no que diz respeito ao seu surgimento nas cidades e seu desenvolvimento com a Revolução Industrial, e a informação com o avanço avassalador dos meios de comunicação de massa, porem outros temas dos quais a complexidade aborda ainda não foram explorados, ou não tão explorados quanto deveriam, como a formação de uma rede de relações e informações e o feedback.
Minha intenção com o estudo da história não é elaborar o conceito da complexidade, mas verificar como que a complexidade e seus conceitos-chave foram sendo praticados ou escamoteados no passado. Sugiro uma proposta para estudo na qual seria a conversação entre saberes, teóricos sociais e historiadores em comunhão.
No livro Historia e Teoria Social, Peter Burke propõe uma maior integração entre historiadores e cientistas sociais, onde os historiadores teriam de “levar a teoria social mais a serio…bem como inspirar teóricos sociais a se interessar mais por história”, sendo que não há dissociação entre empiristas e teóricos, mas sim que caminham juntos nas pesquisas que realizam, pois empiristas e teóricos são “duas extremidades de um espectro”[1].
Ao afirmar isso Burke coloca uma perspectiva de história enquanto conhecimento aberto as outras formas de se pensar o passado, um pensamento em conexão com outros saberes, a idéia então de rede que se forma na interação entre “vizinhos” de visões diferentes sobre um mesmo problema é posta em evidencia e que através de publicações e revisões da historiografia formam o feedback necessário para que haja um maior desenvolvimento do pensamento histórico.
De uma forma geral podemos dizer que o pensamento complexo esta impregnado na nossa mentalidade contemporânea, mas porquê? Segundo Reinhart Koselleck, um historiador dos conceitos, o emergir de um conceito esta estritamente vinculado com tempo, lugar e circunstâncias especificas de uma determinada sociedade, e que se resignifica no decorrer do tempo.
O conceito de complexidade então é fruto do nosso tempo, é fruto das circunstâncias que foram sendo vivenciadas ao longo do século XX. Encaro então que o próprio conceito de complexidade possui sua história, algo concreto que podemos nos pautar. Portanto o pensamento complexo pode ser estudado pelo e para o historiador.
Dizendo isso não pretendo que o pensamento complexo se torne uma escola, mas uma nova maneira de se olhar o passado. Nenhuma outra forma de abordagem do passado é descartada por completa, a concepção de tempo de longa duração de Fernand Braudel nos diz muito sobre o aprendizado das gerações de uma sociedade assim como o marxismo dos embates dialéticos da economia. Todo o acumulo de conhecimento já produzido, tanto pelo ocidente quanto pelo oriente, são acrescentados, analisados, criticados e desenvolvidos. Todos dizem de um passado, assim como todos também dizem muito de seu tempo.
Se caso pensarmos dessa forma, começamos a ver e a nos comportar de forma diferente, criamos uma nova ética, uma nova moral, caminhos são abertos para a descoberta do vizinho ao nosso lado. Descobrimos que quando olhamos o “outro” vemos nossa imagem refletida, mas sabemos que o outro também é diferente de nós.
Porem, a meu ver, a simples utilização do pensamento complexo não é o suficiente para que haja uma mudança real na forma como nos relacionamos, pois assim como mostra Stevie Johnson em seu livro Emergência, a complexidade pode muito bem existir de forma “top down”, ou seja, delegações de ordens e estruturas hierárquicas permanecem na principal forma organizacional, sempre vinculada aos princípios do capitalismo (egoísmo, acúmulo, propriedade privada e tantos outros). Enquanto esse ideal de individualismo extremado, no qual a única coisa que se visa é uma melhor disciplina para uma maior rentabilidade, sem levarem consideração os fatores que degradam a existência de um ser vivo, permanecer em nossas mentes e comportamentos, mesmo que utilizando a complexidade, a humanidade estará fadada à catástrofe (e o que mais me assusta é ver que o pensamento complexo esta nos projetos de administradores de empresas, governantes e muitos outros a favor de um melhor funcionamento do capital).
A emergência de um pensamento emergente, “bottom up”, (sem hierarquia, sem líderes) na academia, e a emergência de uma práxis emergente nas nossas relações desmorona toda uma lógica de raciocínio pautada pelo domínio e presunção e, um dia, quem sabe, quando isso ocorrer aprenderemos mais com um enxame de formigas, ou com uma multidão de pessoas, do que com cientistas em laboratórios e universidades renomadas.
Bibliografia:
· BURKE, Peter, Historia e teoria social. São Paulo, Editora UNESP.

